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Cemitério de pianos

Peixoto, José Luís

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مشخصات کتاب

نویسنده
Peixoto, José Luís
سال انتشار
۲۰۰۶
فرمت
DOC
زبان
pt
حجم فایل
۶۱۴٫۴ کیلوبایت
شابک
9789722515344، 9722515349

دربارهٔ کتاب

Cemitrio de Pianos o quarto romance de Jos Lus Peixoto. Os narradores, pai e filho, desvendam a histria da famlia, que vive em Lisboa, e falam da morte: a morte como destino irremedivel, ciclo ininterrupto, renovao e elo entre geraes. Excerto "na terra do quintal. Empilhava tbuas que eram restos de madeira que o meu pai trazia da oficina e fazia casinhas. A cadela passava devagar, com os olhos castanhos perdidos no cho. Debaixo de uma laranjeira, meio enterrado, estava um pedao comprido de arame enferrujado. Acredito que consigo lembrar-me do momento em que o meu corpo de quatro anos se levantou para, com as duas mos, puxar o arame da terra. Vejo esse instante com a mesma falta de nitidez com que, agora, olho para o lado e distingo copas de rvores, misturas de folhas, a sucederem-se minha passagem. Como uma imagem de cores lquidas a dissolverem-se umas sobre as outras. Naquele dia, voltei a sentar-me junto das tbuas empilhadas, que eram as casas que tinha construdo. Segurava o arame e comecei a encontrar-lhe formas desajeitadas. Na minhas mos, havia riscos de terra e ferrugem. Ouvi os movimentos da porta da rua a abrir-se. Era o meu irmo a sorrir. Tinha as roupas sujas de serradura porque era aprendiz do nosso pai e estava a voltar do trabalho. Disse-me qualquer cumprimento antes de reparar que eu tinha o arame na mo. Os canteiros que a minha me tratava com um sacho floriam atrs dele. O Simo tinha dez anos e era um rapaz. s vezes, punha as mos nos bolsos e ria-se. Quando me lembro dele nos dias que passaram antes daquele dia, a primeira imagem que me surge ele de mos nos bolsos, a rir-se. Naquela tarde, trazia a camisa fora das calas. Quando me viu com o arame na mo, deu trs passos rpidos na minha direco. A partir daqui, foi tudo rpido, mas agora, ao recordar-me, tudo muito lento. As mos do Simo eram maiores do que as minhas e tentavam tirar-me o arame. No sei quais foram as palavras que escolheu para me dizer que no devia brincar com arames porque, antes de poder entend-las, talvez por reflexo, talvez porque naquele momento me pareceu que devia ser assim, talvez porque achava que eu tambm sabia aquilo que devia fazer, talvez por nenhum motivo, por nenhum motivo, no larguei logo o arame. Continuei a segur-lo com as duas mos. Sentia a fora do meu irmo no arame ferrugento que apertava com toda a fora na palma das minhas mos. E foi muito rpido, sei que foi um momento, mas agora parece-me que foi uma hora parada. Todos os movimentos divididos. Tudo muito devagar. A ponta do arame avanou na direco da cara do meu irmo. Como se existisse uma linha recta a mostrar-lhe o caminho. A ponta enferrujada do arame avanou. O seu rosto. Num s movimento, a ponta do arame tocou-lhe na parte branca e hmida do olho direito, premiu-a ligeiramente e afundou-se definitiva num rasgo. O meu irmo largou o arame, afastou a cara e levou as duas mos ao olho direito. Esse foi um momento de silncio absoluto. Eu tinha quatro anos e sabia que tinha acontecido algo terrvel. O meu irmo estava agarrado cara e fazia sons de dor como eu nunca tinha ouvido. No eram gritos. Eram sons de uma dor que o destrua devagar. Eu tinha quatro anos e segurava ainda o arame. Esse foi o momento em que a nossa me nos viu atravs do vidro da janela da cozinha. Esse momento terminou quando a nossa me saiu a correr pela porta, a perguntar: o que que aconteceu?, o que que aconteceu? Eu no conseguia dizer nada. O meu irmo segurava a cara e, atrs das suas mos, nasciam fios de sangue que lhe escorriam pelo brao e pela face e pelo pescoo. Eram fios de sangue muito vivo que lhe desciam pelos pulsos, lhe atravessavam a pele lisa e clara do interior dos braos e lhe pingavam pelo bico do cotovelo. A nossa me, que no imaginava, aproximou-se dele, e disse-lhe: tem calma, tem calma. Sem imaginar, a tentar uma voz serena de me, disse-lhe: deixa l ver o que que aconteceu. O Simo, ainda a querer acreditar que podia haver uma possibilidade de no ter acontecido o que aconteceu, afastou as mos lentamente. No seu rosto ensanguentado, eu e a minha me vimos a maneira como o lado direito da sua cara era um buraco de sangue onde estava a pele branca e vazia do olho, com o desenho circular e espalmado da ris, e que, entre o sangue, lhe escorria sobre o rosto a matria espessa e viscosa, como a clara de um ovo, que estava antes no interior do olho. No lado esquerdo da cara do Simo, o outro olho, magoado e inocente, esperava a reaco da minha me. Eu tinha quatro anos e segurava ainda o arame. Larguei-o quando a minha me no conseguiu parar o grito amargurado que a rasgou. O meu irmo voltou a tapar o rosto. E as minhas irms entraram no quintal a correr pela porta da cozinha. E entraram vizinhos a correr pela porta da rua. A minha me gritava com toda a fora da sua garganta. Algum foi chamar o meu pai oficina. Algum me agarrou pela cintura, me levantou da terra do quintal e me levou para a cozinha. Entre os corpos das pessoas que amparavam a minha me, entre as minhas irms agarradas uma outra a chorarem, entre as pessoas que rodeavam o meu irmo com toalhas limpas e, logo a seguir, encharcadas de sangue, eu tinha quatro anos e era devorado por um medo como lminas. Estava em silncio, parado, com os olhos abertos e muito grandes, a ser devorado por um medo como lminas. Num momento, o meu pai entrou na cozinha. Ningum poderia par-lo. Apenas se ouvia a sua respirao. Passou entre as pessoas, segurou o meu irmo por um brao e, com os homens que estavam na cozinha a seguirem-nos, foram para o hospital. Quando saram, era de noite. Assim que a porta bateu a fechar-se, ficou apenas a aflio da minha me e das minhas irms, seguida pelas vozes arrastadas das vizinhas que tentavam consol-las. Foi uma dessas vizinhas que, entre as sombras das outras, riscou um fsforo e acendeu o candeeiro de petrleo sobre a mesa. A partir da, enquanto o choro da minha me e das minhas irms ia enfraquecendo, as vizinhas iam-se despedindo e saindo. Ficmos sozinhos na cozinha: as pedras do cho da cozinha, a mesa e os bancos de madeira. Atravs da luz e das sombras do candeeiro de petrleo, a minha me e as minhas irms tinham os olhos abertos de encontro a uma imagem que s elas podiam ver. Passou um tempo frio de guinchos e de lminas. Ao fim do sero, o meu pai e o Simo chegaram em silncio. O meu irmo tinha o lado direito da cabea envolto em ligaduras que lhe cobriam o olho. Ningum disse nada. Fomos dormir. Essa noite foi como as noites de muitos meses que se seguiram. Havia um peso fundo dentro de ns a puxar-nos para o nosso interior mais negro. Passaram meses. O meu irmo" Crticas de imprensa "Ternura, morte e renovao - eis as notas que pautam o mais recente livro de Jos Lus Peixoto, um romance cheio de msica e ritmos peculiares sentidos na pontuao e construo das frases; palavras que respiram, correm e desfalecem ao compasso da vivncia das personagens, numa melodia que ora comove e revolta, ora nos faz sorrir e angustia (...) No um romance fatalista. o ciclo redentor da vida escrito sem pudores. Muito bem escrito." Ana Morgado

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